julho 2019

Mudanças nutricionais em um ambiente livre de antibióticos promotores de crescimento

Não há um substituto simples para os antibióticos promotores do crescimento, sendo necessário que as diretrizes de manejo do futuro sejam multifacetadas. Otimizar a digestão, ou melhor, minimizar a indigestão, é uma estratégia viável para limitar o supercrescimento microbiano no intestino e ceco.

 

promotores de crescimentoA digestibilidade sempre foi um tema de estudo de interesse para os nutricionistas da avicultura. Durante os últimos 50 anos, chagamos a apreciar o papel de várias regiões do trato digestivo e seu impacto na digestão, absorção e maturidade das aves.

Dado que o período de desenvolvimento dos frangos de corte foi reduzido, a importância destas funções no período inicial aumentou. Hoje em dia, é difícil atingir um peso na idade de abate normal, se houver atraso na taxa de crescimento, independentemente do motivo, durante os primeiros sete dias de crescimento.

O pinto nasce com um intestino praticamente livre de micróbios, por isso os colonizadores precoces tendem a predominar.

Os nutrientes sem digerir estarão disponíveis para favorecer o crescimento microbiano nas porções distais do intestino e ceco, e caso incluam bactérias patógenas, o pinto estará em desvantagem.

A microbiota intestinal “normal” se desenvolve rapidamente, de forma que a carga bacteriana e as espécies presentes na bandeja de incubação, durante a entrega e durante os primeiros dias na granja, determinarão a colonização precoce.

O conceito Nurmi de manipulação da microbiota intestinal se baseia na introdução precoce de micróbios não patógenos. Idealmente, esses micróbios ajudarão a prevenir a colonização por patógenos e a exclusão competitiva (CE – Competitive Exclusion). Sem dúvida, é uma das ferramentas de manejo do futuro empregada na produção de frangos de corte

O desenvolvimento precoce e rápido do epitélio intestinal é outro pré-requisito para uma digestão normal.

As vilosidades e microvilosidades intestinais crescem rapidamente nos primeiros dias e, qualquer atraso neste processo, levará a uma redução na captação de nutrientes, aumentando sua disponibilidade para os patógenos anaeróbios.

promotores de crescimentoA presença de patógenos, micotoxinas e toxinas animais e vegetais retardam o desenvolvimento das microvilosidades. A seleção de ingredientes de alta digestibilidade, livres de toxinas naturais, é importante para garantir um desenvolvimento intestinal inicial rápido.

O ácido butírico, seja no alimento, seja como consequência da fermentação de polissacarídeos não amiláceos, é importante para o desenvolvimento das microvilosidades. À medida que o epitélio se desenvolve dentro das microvilosidades, a mucosa secretada age como uma importante barreira contra a colonização patógena e a autodigestão pelas próprias enzimas digestivas da ave.

Algumas bactérias são capazes de colonizar porque são capazes de degradar esta camada protetora da mucosa.

A Helicobacter pylori, bactéria causadora de úlceras gástricas nas pessoas, segrega a enzima urease que destrói o revestimento mucoso, expondo a parede gástrica à ação do ácido clorídrico e à pepsina do estômago. Seria interessante estudar a microbiota intestinal de aves alimentadas com uma farinha de soja rica em urease. Atualmente, o destino dos nutrientes não digeridos está adquirindo a mesma importância que o dos nutrientes digeridos. No passado, considerava-se que 12-20% de ingredientes indigestíveis eram um problema associado à consistência das fezes e à qualidade da cama

Agora sabemos que o material indigestível influencia no crescimento microbiano, especialmente no intestino grosso e ceco. Potencializar o crescimento microbiano poderá ter uma enorme importância em um cenário em que já não se utilizem antibióticos promotores de crescimento, principalmente em ausência dos ionóforos anticoccidianos.

promotores de crescimentoDigestão de carboidratos

A maior parte da digestão ocorre no jejuno. Aproximadamente 60-70% do amido presente nos cereais se encontra em forma de mono- ou dissacarídeos – no momento em que a digestão chega ao íleo proximal, enquanto 95% do amido está digerido quando chega ao íleo terminal.

O principal fator que influencia na digestão de carboidratos é o conteúdo em polissacarídeos complexos, como celulose e lignina. Há muito pouca lignina em dietas à base de milho-SBM (farinha de milho e soja), de forma que a celulose se torna o principal limitante da digestibilidade.

Apesar de até 10% da celulose dietética desaparecer no trato digestivo, a maior perda se associa a à atividade microbiana no intestino grosso e ceco, onde os produtos da digestão têm utilidade limitada para a ave, porém favorecem o crescimento microbiano.

Existem outros polissacarídeos que são de maior interesse para os nutricionistas da avicultura, como as hemiceluloses, pentosanas, β-glucanos e oligossacarídeos (estaquiose e rafinose) encontradas na farinha de sementes de oleaginosas e que, em seu conjunto, são conhecidas como polissacarídeos não amiláceos.

Geralmente, há uma correlação negativa entre a digestibilidade dos carboidratos e o conteúdo de altos níveis de pentosanas e β-glucanos. Infelizmente, esses polissacarídeos não digeridos têm o efeito adverso de absorver grande quantidade de água da digestão, criando um meio de maior viscosidade.

Em consequência, diminui a possibilidade de contato de todos os substratos com as enzimas digestivas e todos os produtos digeridos podem não chegar às microvilosidades intestinais.

Esses carboidratos complexos reduzem a digestibilidade de todos os nutrientes presentes no bolo alimentar, não somente dos carboidratos, levando irremediavelmente a um supercrescimento bacteriano.

Por sorte, atualmente é possível adicionar ao alimento enzimas exógenas, como a xilanase e a β-glucanasa, eliminando os problemas associados à viscosidade do alimento, melhorando a digestibilidade dos nutrientes e conseguindo um melhor equilíbrio da microbiota intestinal.

Os alfa-galactossacarídeos, comumente conhecidos como oligossacarídeos, representam até 12% dos carboidratos presentes na farinha de soja. Os componentes mais comuns são estaquiose, rafinose e celobiose. Embora possam ser extraídos com etanol, esses oligossacarídeos não são retirados da soja mediante a extração química de gordura com hexano, sendo seu resíduo parcialmente responsável pela baixa quantidade de energia digestível da farinha de soja destinada à avicultura. Devido à ausência de atividade β-galactosidase na mucosa intestinal, há interesse na adição de enzimas exógenas ao alimento e/ou extrair os polissacarídeos mediante etanol.

Digestão de proteínas

O proventrículo é o primeiro ponto de degradação proteica, graças à ação de secreções que incluem ácido clorídrico e a enzima pepsina. Antes da chegada do alimento ao proventrículo e à moela, o pH das secreções pode ser tão baixo como 1,5-2, mas sob as condições tamponadoras do alimento, o pH aumenta para 3,5-5. Uma moela ativa, com um pH baixo, tem grandes propriedades antibacterianas, embora tenha menor impacto sobre a passagem dos oocistos de coccídios.

Uma parte considerável da proteína endógena entra no trato digestivo em forma de saliva, sucos gástricos, sucos pancreáticos, células epiteliais descamadas da mucosa intestinal e mucinas. Esta proteína endógena não deve ser confundida com as perdas de nitrogênio endógeno através da urina, já que a proteína endógena é digerida e utilizada pelo animal, enquanto o nitrogênio endógeno perdido através da urina deve ser restituído diariamente mediante proteína dietética adicional.

Digestão de gorduras

A digestão e a absorção de gorduras ocorre, principalmente, no intestino delgado. A atividade da lipase aumenta rapidamente durante os 10 primeiros dias de vida. Por exemplo, no duodeno, a atividade da lipase aumenta em até 100 vezes entre os 4 e 15 dias após o nascimento. A digestão é potencializada pelas propriedades emulsionantes dos sais biliares, já que as lipases somente são ativas em uma interface óleo-água. Os ácidos graxos da cadeia média e os triglicerídeos parecem não precisar do pré-requisito da formação de micelas antes da digestão e absorção, por isso são ingredientes interessantes no caso das dietas iniciais.

Os componentes insolúveis em água, como os ácidos graxos e os monoglicerídeos, não podem formar micelas por si só, mas formam micelas mistas estáveis com sais biliares conjugados. Ácidos graxos saturados, como os ácidos palmítico e esteárico, são apolares, têm pontos de fusão elevados e somente são levemente solúveis na emulsão com sais biliares. No entanto, são notavelmente solúveis na presença de uma micela mista.

O equilíbrio entre ácidos graxos saturados e insaturados, presentes na dieta, e a quantidade de sais biliares são fatores importantes na absorção de gorduras. Se um ácido graxo saturado se encontrar na posição 2 de um triglicerídeo, será absorvido facilmente dado que os monoglicerídeos com ácidos graxos saturados são mais bem absorvidos do que quando se encontram em forma de ácidos graxos saturados livres.

Formulação de alimentos balanceados

Embora as dietas à base de farinha de soja sejam consideradas o padrão na avicultura, há evidências de que sua digestibilidade é subotimizada no caso do pinto jovem. Comparado com os valores esperados, há uma redução de até 10-15% na Energia Metabolizável Aparente e na digestão de aminoácidos em pintos de menos de 5-10 dias de vida

No caso da formulação de dietas iniciais, a ideia é corrigir tais deficiências e incrementar a taxa de crescimento precoce e/ou reduzir o supercrescimento microbiano.

O aminoácido limitante para os clostrídios parece ser a lisina e a serina. Limitar seu fluxo para o intestino grosso usando proteínas animais caras é uma estratégia para minimizar o supercrescimento bacteriano. No estudo da saúde intestinal somos muito limitados por nossa falta de conhecimento, com precisão, da microbiota normal presente nas aves saudáveis. Sugeriu-se que as técnicas convencionais de cultivo conseguem isolar, no máximo, apenas 5% das espécies bacterianas presentes no intestino.

A aplicação de técnicas mais inovadoras, incluindo a identificação do DNA dos micróbios, poderia lançar luz sobre a complexidade da microbiota, principalmente sobre como mudam em resposta a diferentes tipos de dieta.

Perspectivas para o futuro

Otimizar a digestão, ou melhor, minimizar a indigestão, é uma estratégia viável para limitar o supercrescimento microbiano no intestino e ceco. Não há um substituto simples para os antibióticos promotores do crescimento, sendo necessário que as diretrizes de manejo do futuro sejam multifacetadas.

Na Tabela 1 são recopiladas algumas das abordagens para limitar o fluxo de nutrientes para os patógenos intestinais. Há uma oportunidade para a alimentação com dietas iniciais especializadas e, embora sejam mais caras em comparação com as dietas convencionais, têm o potencial de proporcionar benefícios a longo prazo, além dos observados no momento de seu fornecimento.

promotores de crescimento

Tabela 1. Ações potenciais para limitar o fornecimento de
nutrientes para os patógenos intestinais

Atualmente, existe uma ampla lista de “alternativas” aos antibióticos promotores de crescimento e, sem dúvida, muitas delas são incorporadas pela indústria de produção de frangos de corte. Conforme aprendemos mais sobre as populações bacterianas, adquirimos conhecimentos sobre suas necessidades nutricionais e suas condições de proliferação. Nosso entendimento da interação entre as populações microbianas e a digestão não deve desviar nossa atenção da importância dos princípios básicos do manejo dos frangos de corte. As práticas de incubação têm cada vez mais importância na otimização da função intestinal normal e na minimização da proliferação de patógenos

 

Independentemente das estratégias empregadas na prevenção da proliferação dos patógenos na produção, devemos lembrar que os micróbios são oportunistas com uma surpreendente capacidade para adaptar-se aos novos ambientes. Provavelmente, nenhuma estratégia será efetiva a longo prazo. Por isso, devemos estar preparados para ser flexíveis com nossos programas dietéticos, suplementos alimentares e práticas de manejo.

Conteudo da aviNews Brasil
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