18 nov 2020

A laringotraqueíte infecciosa das galinhas: “Uma doença antiga… Um problema contemporâneo”

Ceva Laringotraqueite


AUTOR(ES)

Jorge Chacón

M.V. MSc. PhD Serviços Veterinários – Ceva Saúde Animal - Brasil

Diamond V

Embora o primeiro relato da Laringotraqueíte infecciosa das galinhas (LTI) tenha acontecido há quase 100 anos (1925), a doença continua sendo considerada uma das mais importantes da avicultura industrial devido aos frequentes surtos descritos que levam a sérios prejuízos produtivos e econômicos.

A LTI foi a primeira doença das aves de origem viral para a qual foi desenvolvida uma vacina (1932).
Na atualidade, vacinas vivas atenuadas desenvolvidas na década dos 60s e 70s continuam sendo usadas em alguns países, porém existe uma clara tendência de proibir o uso deste tipo de vacinas pelos sérios problemas de segurança associados ao seu uso.

Vacinas vetorizadas vêm substituindo as vacinas vivas porque não apresentam os problemas de segurança associados às vacinas vivas.

 

Ceva LaringotraqueiteO desconhecimento sobre aspectos da patogenia do agente etiológico, e o desconhecimento sobre o funcionamento e limitações das vacinas (vivas e vetorizadas) tem levado ao fracasso de programas imunoprofiláticos, principalmente em sistemas de criação de múltiplas idades.

 

 

 

 

 

 

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ASPECTOS ETIOLÓGICOS

 

AGENTE VIRAL
O agente causante da Laringotraqueíte infecciosa das galinhas é o Gallid herpesvirus tipo 1 (GaHV-1), membro do gênero Iltovirus, da família Herpesviridae.

VARIABILIDADE GENÉTICA E ANTIGÉNICA
Por ser vírus DNA, o VLTI tem seu genoma estável, apresentando baixa variabilidade genética entre os diferentes vírus isolados de diferentes regiões geográficas do mundo. Desta forma, análises moleculares sofisticadas são necessárias para discriminar entre:

a) vírus vacinais e de campo;
b) vírus vacinais; e
c) vírus de campo.

Vírus de campo e vacinais apresentam alta homologia antigênica mostrando que todos os vírus pertencem ao mesmo sorotipo.

 

RESISTÊNCIA VIRAL                                                Ceva Laringotraqueite                                 

 

 

Embora o VLTI possa ser inativado por vários agentes químicos, ele apresenta alta termoestabilidade relativa: mantém sua infectividade por vários meses em meios líquidos a temperatura de 4oC.

O VLTI pode permanecer viável por várias semanas na cama, dejetos e carcaças.

Este vírus sobrevive mais de quatro dias em cama

úmida e vinte dias em cama seca.

Na carcaça a inativação acontece após 44 horas a 37oC.

 

O vírus pode manter-se infeccioso no exsudato traqueal e carcaça por períodos de 10 a 100 dias em temperaturas ambientais de 13 a 23oC.

 

Embora o VLTI seja envelopado, ele apresenta alta resistência a vários desinfetantes comerciais utilizados na indústria avícola na presença de matéria orgânica, mas tem se mostrado sensível ao clorofórmio, éter, cresol 3%, fenol 5%, ipocloritos e iodóforos.

 

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PATOGENICIDADE

 

Diferentes estudos mostraram que a virulência varia consideravelmente, resultando em infecções que vão de subclínicas ou assintomáticas até uma doença respiratória severa com alta morbidade e mortalidade.

É bem documentado o potencial do VLTI de baixa de virulência, de se transformar em vírus de alta virulência, capaz de produzir doença clínica. Estudos experimentais utilizando vírus de baixa virulência, isolados de casos clínicos e procedentes de vacinas vivas, demonstraram um aumento da virulência depois de várias passagens ave-ave.

 

Monitorias sorológicas de campo têm detectado circulação viral em granjas sem evidência de sinais clínicos, mas após um espaço de tempo variável, as granjas apresentaram doença clínica

 

 

 

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LATÊNCIA VIRAL 

 

Ceva LaringotraqueíteUma característica das infecções por herpesvirus é a capacidade deste vírus de permanecer no hospedeiro infectado, após a infecção aguda, em um estado de latência.

 

O estado de portador é caracterizado porperíodos de latência intercalados com curtos, intermitentes e espontâneos episódios de disseminação do vírus. O vírus pode ser encontrado de 4 a 7 dias depois da infecção no gânglio trigêmeo, principal lugar de latência viral, e pode permanecer ali por até 15 meses.

Uma vez latente, o vírus não é apresentado ao sistema imune por não existir expressão de suas proteínas, o que impede tanto a ação do sistema imune na defesa do animal acometido quanto a detecção de resposta imune por provas sorológicas.

 

Com isso, uma fonte de infecção não é detectada, não sendo excluída do lote, podendo vir a transmitir o VLTI para aves susceptíveis de modo esporádico, ao longo de toda a vida.

 

A expressão do DNA viral latente é promovida por fatores estressantes e/ou alterações hormonais, como o início da  Ceva Laringotraqueítepostura, transferência de gaiolas ou a muda forçada em aves de postura.

 

O VLTI reativado do estado latente, seja de campo ou vacinal, tem a capacidade de causar doença com o mesmo grau de intensidade que a causada pelo vírus isolado de casos de infecção aguda.

 

Gráfico 1. Perpetuação do VLTI a través de infecções latentes em aves portadoras

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Laringotraqueíte infecciosa das galinhas (LTI)

 

ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS

TRANSMISSÃO

O VLTI pode ser transmitido por contato direto de ave infectada com ave susceptível, e de forma indireta através do contato com materiais contaminados.

As aves infectam-se com o VLTI através do trato respiratório superior e por via ocular, sendo as aves com infecção clínica as principais transmissoras do vírus.

 

Outras fontes de transmissão implicadas em surtos incluem aves com infecções latentes, materiais de cama, equipamentos e fômites contaminados.

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Diversas publicações têm mostrado o transporte de aves infectadas e dejetos contaminados como as principais vias de contaminação.

 

 

 

 

 

Um estudo caso-controle, identificou que granjas localizadas no fluxo de correntes de ventos comuns com granjas com infecção clínica Ceva Laringotraqueítetêm 9,9 vezes mais probabilidade de se contaminar.

Outros fatores de risco importantes são:

localização próxima de uma granja infectada e

 

o uso de sistema de ventilação convencional.

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HOSPEDEIROS

Frangos e galinhas comerciais de todas as idades são susceptíveis. Na atualidade é possível observar a doença clínica severa em granjas de frango de corte e poedeiras comerciais desde os 35 dias de idade. Em granjas de múltiplas idades, a apresentação mais precoce da doença demostra um nível de contaminação elevado da granja.

Outras espécies afetadas são os faisões, perus, galinhas d ́angola, patos e aves de fundo de quintal, todos eles reservatórios e potenciais fontes de infecção para as criações comerciais.

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Fotos 1. Frangos de corte, poedeira e matrizes apresentando forma severa da LTI

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Laringotraqueíte infecciosa das galinhas (LTI)

 

ASPECTOS PATOGÊNICOS

 

Ceva LaringotraqueíteREPLICAÇÃO VIRAL

 

 

O VLTI multiplica-se principalmente no epitélio da laringe e traqueia, e em outras membranas e tecidos como conjuntiva, seios nasais, sacos aéreos e pulmões.
O vírus está presente na traqueia e na secreção traqueal por 6 a 8 dias pós-infecção (PI).

 

Ceva LaringotraqueíteFORMAS DA DOENÇA

 

A forma e a severidade da doença dependerá de vários fatores que incluem:

grau de virulência do agente viral;

 

linhagem e idade da ave;

 

nível de resistência e status de imunidade da ave;

 

infecções concomitantes e condições ambientais.

 

Para fins práticos, são reconhecidas três formas:

Severa

Os sinais clínicos associados com esta forma incluem:

depressão,

 

dispneia,

 

 

espirro,

 

descarga nasal,

 

conjuntivite e

 

expectoração de secreção sanguinolenta.

 

As aves que contêm altas quantidades de exsudatos caseosos com dispneia produzem estertores. A ave estende o pescoço na tentativa de inalar o ar, e material sanguinolento pode ser observado no bico, penas, cama, paredes e gaiolas. A taxa de morbidade é alta (100%) e a mortalidade poderá chegar até 70%, embora se situem entre 10 e 40%.

Leve

Nestes casos, podem ser observados sinais inespecíficos como leve traqueíte mucoide, sinusite, conjuntivite com secreção, morbidade variável e baixa mortalidade (<2%). No caso de frangos de corte, os indicadores de conversão alimentar e ganho de peso serão afetados.

Assintomática

Presença de vírus de baixa virulência e ausência de qualquer sinal clínico.

 

Fotos 2. Formas clínicas da doença

FORMA Severa – Alta mortalidade (>10%)

 

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Laringotraqueíte infecciosa das galinhas (LTI)

Vírus de alta virulência
Lote sem imunidade
Outros patógenos ou fatores envolvidos
Diagnóstico fácil

 

 

 

FORMA Leve – Baixa mortalidade (<2%)

 

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Laringotraqueíte infecciosa das galinhas (LTI)

Vírus de baixa virulência Imunidade parcial
Sem outros agentes ou fatores envolvidos
Diagnóstico mais complicado

 

 

 

LESÕES MACROSCÓPICAS

 


Um achado comum em aves acometidas pelo VLTI de alta virulência é o tampão caseoso ou sanguinolento que se forma na luz traqueal.

As lesões mais importantes são observadas na laringe e na traqueia, onde pode ser encontrado um processo inflamatório que pode variar de mucoso a hemorrágico.

Na traqueia, lesões diftéricas ou hemorrágicas na mucosa, com tecido necrosado ao longo da sua mucosa podem ser encontradas, podendo estender-se até os brônquios, pulmões e sacos aéreos.

As aves que manifestam a forma suave da doença podem apresentar edema, inflamação e congestão do epitélio da conjuntiva e seios infraorbitais, além de traqueíte catarral que se manifesta de modo leve.

 

Fotos 3. Achados macroscópicos da forma severa da LTI

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Laringotraqueíte infecciosa das galinhas (LTI)

 

 

LESÕES MICROSCÓPICAS

 

A replicação viral na traqueia leva a:

infiltração de linfócitos, histiócitos e plasmócitos na mucosa e na submucosa,

 

perda de cílios,

 

edema celular e

 

formação de sincícios.

 

 

Estas mudanças causam descamação epitelial com exposição de capilares e subsequentes hemorragias. Corpúsculos de inclusão intranucleares (CI) podem ser visíveis entre o primeiro e o quinto dia PI, desaparecendo devido à descamação do epitélio.

 

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Laringotraqueíte infecciosa das galinhas (LTI)

 

IMPACTOS DA DOENÇA

 

Após aparição do primeiro surto, a empresa/granja acometida será economicamente impactada, mas também terá outros problemas de tipo logístico e comercial.
A severidade é potencializada e o controle dificultado caso outros patógenos estiverem envolvidos (por exemplo, vírus variante da Bronquite infecciosa ou Mycoplasma gallisepticum).

A alta mortalidade causada pela doença (média de 20% do lote acometido) aumentará os custos de produção.

Durante o surto, a granja terá despesas adicionais como a desinfecção sistemática durante a ocorrência da mortalidade do lote para diminuição da carga viral circulante; e antibioticoterapia para controlar agentes bacterianos oportunistas.

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Laringotraqueíte infecciosa das galinhas (LTI)

 

 

 

Ceva Laringotraqueíte

Após aparição da doença em granjas de múltiplas idades, o programa vacinal e de biosseguridade terão que ser reforçados aumentando as despesas.
O tratamento do esterco contaminado e das aves mortas requerem de maiores investimentos de infraestrutura e processos, aumentando as despesas da granja acometida.

A mortalidade aumentada impossibilitará que a granja atenda suas demandas programadas de carne (frango), ovos (poedeiras) ou pintinhos (matrizes).

Caso a granja decida eliminar a circulação viral sem uso da vacinação, vazios sanitários de até 2 meses (contabilizados desde o retiro de 100% das aves) impactarão enormemente o planejamento e a programação de produção da empresa.

 

DIAGNÓSTICO

O diagnóstico preciso e rápido é o primeiro passo para iniciar o controle da doença.
No caso da forma severa da doença, quando há expectoração de material sanguinolento, e presença de conteúdo caseoso
ou hemorrágico na traqueia que leva a morte por asfixia, o diagnóstico clínico presuntivo é de alto valor, e na maioria das
vezes se confirma pelos métodos laboratoriais.

Tabela 1. Principais características das técnicas de diagnóstico da LTI

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Laringotraqueíte infecciosa das galinhas (LTI)

 

 

ASPECTOS DE CONTROLE

PREVENÇÃO DO INGRESSO DO AGENTE INFECCIOSO

 

Granjas localizadas em regiões de alta densidade populacional, com criações de múltiplas idades requerem de medidas de biosseguridade rigorosas para evitar o ingresso do agente.
Estas medidas podem ser insuficientes quando existem granjas vizinhas apresentando a forma aguda da doença. A transmissão pelo vento desde granjas infectadas para granjas susceptíveis quando compartem os mesmos fluxos de ventos predominantes mostram a limitação das medidas de biosseguridade sem vacinação.
Na atualidade, após aparição de um surto agudo, as principais medidas dirigidas a evitar propagação do agente viral incluem

diagnóstico rápido,

 

reforço das medidas de biosseguridade,

 

uso de tecnologias de
informação geográfica,

 

limpeza e desinfecção,

 

vacinação e comunicação entre os setores envolvidos (produtores e autoridades).

 

Uma vez que a cama contaminada e mobilização de aves infectadas se mostraram como as principais formas de contaminação, os esforços devem incluir definição das rotas de transporte (plano de contingência).

ELIMINAÇÃO DO
AGENTE INFECCIOSO                                                                                                                                      Laringotraqueite

 

Para a eliminação do VLTI circulante na granja é necessário limpeza e desinfecção rigorosa e vazio sanitário de toda a   propriedade por aproximadamente 2 meses.

A tabela abaixo apresenta as principais medidas necessárias para a eliminação de VLTI em granjas de frango de corte após despovoamento total dos aviários.

Neste estudo, o agente infeccioso foi detectado até 43 dias depois de finalizado o processo de desinfecção do aviário.

 

 

Tabela 2. Ações realizadas para a eliminação do VLTI em aviários de frangos de corte infectados e tempo necessário para eliminação do
agente infeccioso (Chin, R. et al., 2009)

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Laringotraqueíte infecciosa das galinhas (LTI)

 

CRIAÇÃO DE RESISTÊNCIA DA AVE E DO LOTE

 

As condições atuais de criação têm desafiado e muitas vezes quebrado intensos programas de biosseguridade. Neste cenário, a imunização das aves de forma preventiva revela-se como forte aliado, criando resistência no lote.

Na atualidade, infelizmente, a imunização se inicia somente após a aparição do primeiro surto agudo, nestes casos, o controle da doença já instalada é mais trabalhoso, demorado e custoso.

Particularmente em criações de múltiplas idades, aonde o vírus pode se estabelecer através de aves portadoras assintomáticas que propagam o vírus de forma silenciosa, o controle mostra-se mais difícil e demorado.

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A. VACINAS

a. Vivas atenuadas

Vacinas vivas atenuadas por passagem em embrião de frango (CEO) e em cultura de tecido (TCO) foram desenvolvidas na década dos 60s para controle da doença.
Particularmente a vacina CEO se mostrou eficaz para controlar elevadas mortalidades em casos severos da doença, porém elas podem causar forte reação pós-vacinal levando a queda do desempenho e condenações nos frangos de corte.
Com a disponibilidade de técnicas moleculares, se confirmou que as vacinas vivas podem recuperar sua virulência, tornando-se agressivas às aves e causando a doença.
Recentes trabalhos mostraram que vírus de origem vacinal estavam envolvidos em 65% dos surtos da doença analisados nos EUA.

b. Vetorizadas

Na atualidade existem vacinas vetorizadas para a LTI que usam como vetores os vírus HVT da doença de Marek (rHVT LTI) e da Bouba aviaria (rFP LTI), que expressam proteínas imunogênicas do VLTI.
Estas vacinas podem ser aplicadas desde o incubatório e não apresentam os problemas de segurança das vacinas vivas CEO e TCO por não conter vírus vivo da LTI. A frequente detecção de vírus de origem vacinal em surtos nos EUA, Europa e Austrália tem levado a diminuição do uso de vacinas vivas, observando-se uma clara tendência mundial de maior uso de vacinas vetorizadas por não apresentarem problemas de segurança.

Tabela 3. Principais características das vacinas vivas e vetorizadas de LTI

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