jul 2019 / Patologia & Saúde Animal / Artículos

A evolução do vírus da Doença de Gumboro

A doença infecciosa da bursa, bursite infecciosa aviária (IBD), ou doença de Gumboro, é causada pelo vírus da bursite infecciosa (IBDV). O vírus infecta os linfócitos B imaturos da bursa de Fabricius, localizada na região da cloaca dos frangos, provocando imunossupressão, infecções secundárias associadas a patógenos oportunistas, menores respostas aos programas vacinais e maiores reações clínicas às vacinas vivas atenuadas.

Além da morbilidade e da mortalidade, esta doença provoca ainda:

  • Perdas econômicas associadas a infecções secundárias
  • Precária eficiência alimentar
  • Retardo do crescimento
  • Falta de uniformidade
  • Retardo para chegar ao peso de mercado

O controle do IBD é realizado principalmente mediante a vacinação.

Evolução do vírus

virus bursitis infecciosa GumboroQuando pensamos em vírus que podem mudar rapidamente e dificultar nossos esforços para vacinar, o IBDV não costuma ser um deles. No entanto, este vírus RNA evoluiu lentamente desde a sua descoberta em 1962. Este fato tornou-se aparente quando falhas vacinais em bandos de frangos de corte revelaram a presença de um segundo tipo antigênico do IBDV conhecido como variante.

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As vacinas contra o IBDV, original (clássico) não protegiam as aves contra essas variantes antigênicas do vírus.

Os termos clássico e variante continuam sendo usados para descrever as cepas de IBDV, mas agora sabemos que a evolução do vírus deu lugar a muitos tipos antigênicos novos.

Isso é um problema, já que as vacinas comerciais que utilizamos para proteger os bandos contra esta doença, foram obtidas de cepas de IBDV com mais de 30 anos, que são diferentes dos tipos antigênicos de IBDV encontrados nos lotes de frangos de corte e poedeiras atuais. Ocasionalmente, as vacinas antigas proporcionam certa proteção cruzada contra as novas cepas de IBDV, mas raramente oferecem uma proteção completa, sendo difícil prever sua eficácia.

Como podemos controlar essas cepas de IBDV em contínua evolução?

A imunidade maternal é a primeira linha de defesa contra os desafios gerados pela IBD em pintos. Os estudos de vacinação/desafio revelaram claramente que o IBDV evoluiu e que existe um número de tipos antigênicos diferentes. Esse fenômeno conhecido como “deriva antigênica” é a razão pela qual muitas vacinas para lotes de reprodutoras oferecem pouca, ou nenhuma proteção. Essa situação levou ao uso de vacinas autógenas inativadas, isto é, obtidas a partir de vírus de campo isolados atuais.

As vacinas autógenas em lotes de reprodutoras conferem imunidade maternal para sua progênie contra as cepas emergentes de IBD. No entanto, estas vacinas também podem ter alguns inconvenientes e nem sempre são a melhor resposta:

  • As vacinas autógenas requerem o isolamento e o cultivo dos vírus de campo, o que leva tempo e pode resultar em atrasos para o uso dessas vacinas nas reprodutoras.
  • Também é importante certificar-se de escolher o vírus correto para a produção da vacina autógena e, tendo em vista que se trata de vacinas mortas, também pode haver o risco de uma inativação incompleta.
  • Regulações governamentais também podem limitar, ou proibir o uso de vacinas autógenas inativadas em muitos países.

Uma possibilidade para controlar as cepas emergentes de IBDV poderia ser novas vacinas com plataformas “VLP” (do inglês, Vírus-Like Particle vaccines). Estas vacinas poderiam substituir as vacinas inativadas convencionais e autógenas nos programas de vacinação para as reprodutoras.

As vacinas VLP podem ser produzidas para assemelhar exatamente a antigenicidade dos vírus causadores de problemas. Da mesma forma, estas podem ser modificadas e atualizadas à medida que o vírus (IBDV) for evoluindo no campo.

Em um próximo número da aviNews Brasil será apresentado um artigo sobre o controle de IBD mediante a tecnologia VLP.

A melhor forma de nomear as cepas de IBDV

Os nomes dos isolamentos de IBDV são muito confusos e isso se torna um problema para selecionar uma cepa vacinal para proteger contra uma cepa patógena (patotipo) diferente e/ou variante antigênica do vírus.

Com o passar dos anos, os isolamentos de IBDV foram nomeados com base em:

  • Observações clínicas: suave, intermediário, intermediário-plus e “quentes”
  • Nome da pessoa que descreveu o isolamento pela primeira vez: Winterfield, Lukert, Moulthrop, Baxendale
  • Variações antigênicas: clássica, variante
  • Designações alfanuméricas: STC, D78, G603, S706, 228E, GLS, 002/73, V877
  • Localização geográfica: Del-A-E, MD, OH

Embora essas nomenclaturas parecessem lógicas em seu momento, atualmente oferecem pouca, ou nenhuma informação sobre os isolamentos. Em um relatório recente (Jackwood, D. J., Schat, K. A., Michel, L. O. and de Wit, S., A proposed nomenclature for infectious bursal disease virus isolates, Avian Pathology, 47:576-584. 2018), foi proposto um novo sistema mais apropriado para designar os isolamentos passados e futuros do vírus.

A designação dos isolamentos de IBDV seria realizada de forma similar ao que é feito com os vírus da influenza aviária e da bronquite infecciosa. O isolamento do IBDV seria renomeado para incluir a espécie avícola, o país de origem, o nome comum e o ano de isolamento, com a adição de uma chave descritiva no início, indicando se pertence ao sorotipo 1 ou 2. Assim, a cepa de IBDV do sorotipo 1, comumente conhecido como STC, passaria a chamar-se: 1/chicken/USA/STC/67.

Embora o novo sistema de nomenclatura forneça informações gerais sobre as cepas de IBDV, este não inclui a informação sobre a antigenicidade e patogenicidade dos vírus

O fato de o novo sistema de nomenclatura não incluir informação sobre a antigenicidade e patogenicidade dos vírus é deliberado, pois os estudos sobre antigenicidade e patogenicidade realizados em muitos laboratórios ao redor do mundo utilizam diferentes protocolos, o que resulta em diferentes conclusões para o mesmo vírus. Esta variabilidade de resultados é motivo de confusão entre os profissionais especializados em medicina aviária.

Por exemplo, nem todos os isolamentos conhecidos como vvIBDV são associados a uma elevada mortalidade, inclusive alguns vvIBDV reorganizaram seus segmentos genômicos, resultando em um vírus com uma menor patogenicidade (virulência).

Portanto, é necessário estabelecer um novo sistema de nomenclatura que possa ser aplicado facilmente no mundo todo e que proporcione informações sobre as características das cepas de IBDV.

Usando tecnologia de biologia molecular é possível comparar as sequências genômicas dos vírus IBDV. Assim, a designação dos genogrupos, identificados mediante uma análise filogenética padronizada de uma região específica do genoma, poderá ser aplicada universalmente às cepas de IBDV isoladas no mundo todo.

Os estudos realizados demonstraram que as cepas de IBDV que fazem parte do mesmo genogrupo têm muitas características antigênicas e patogênicas semelhantes.

A adição da designação de genogrupo (G) aos novos nomes dos vírus poderia ser análoga à adição dos subtipos Hemaglutinina (H) e Neuraminidase (N) ao final da nomenclatura de Influenza. Dessa forma, e empregando este sistema universal, a cepa STC seria renomeada como 1/chicken/USA/STC/67 (G1). Conforme foi indicado na publicação de Michel, L. O. and D. J. Jackwood, (2017). Classification of infectious bursal disease virus into genogroups. Arch Virol. 162:3661-3670. doi: 10.1007/s00705-017-3500-4, foi identificado um total de 7 genogrupos de IBDV

  • O vírus STC e praticamente todas as cepas de IBDV clássicas pertencem ao genogrupo 1.
  • A maioria das cepas IBDV variantes se encontra no genogrupo 2.
  • A maioria dos vírus vvIBDV faz parte do genogrupo 3.
bursitis infecciosa

É provável que, à medida que vírus for evoluindo, sejam identificados novos genogrupos

CONCLUSÃO

Em suma, a evolução de IBDV ao longo das décadas resultou no aparecimento de inúmeros tipos antigênicos e patogênicos do vírus.

A chave para controlar essas cepas é identificá-los e determinar quais vírus são seus “parentes” mais próximos. Isso pode ser obtido mediante tecnologia de biologia molecular, que permite classificar os novos vírus no genogrupo apropriado.

Com base nessa informação, é possível tomar uma decisão sobre quais vírus vacinais poderiam estar relacionados aos vírus de campo e, caso não estejam relacionados, poderá considerar-se a produção e uso de uma vacina autógena.

Espera-se que, em um futuro próximo, as vacinas produzidas mediante tecnologia VLP estejam disponíveis, possam ser produzidas rapidamente e permitam mantermo-nos em dia com as novas cepas emergentes dos vírus desta doença.

 

Conteudo da aviNews Brasil
Ed. Junho 2019

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